domingo, 15 de fevereiro de 2009

(As palavras que nunca te direi)

...que ficaram entaladas, sufocadas, perdidas, num turbilhão de destroços.




Pegas em teu corpo fragilizado e tentas, ao som de uma melodia crispada, dar os passos que te são prometidos. Deambulas desequilibrada, como a tua própria essência o é. E no teu andar errático e despersonalizante, concentras-te na tua cara e consomes a energia de uma galáxia para esconderes que és frágil e amarga por detrás de um artificial sorriso meticulosamente construído para ser feliz. Tão feliz e tão inócuo que é deveras irritante. Mudas de cor ao passares pelos diferentes cenários, tal qual um camaleão. Nunca és a mesma em cada dia. As tuas personagens dançam ao sabor da rotatividade, conforme te apraz, ao olhares o teu guarda-roupa. Vestes mais do que uma camisola e no escuro da noite andas descalça pelo chão. Mostrando à Lua a tez pálida da tua pele. Só assim te mostras. Só quando a Lua está no alto do céu e quando a luminosidade é misteriosa e envolta em fascínio. Talvez essa seja a única forma de te tornares apetecível. Gostas de sapos. Gostas de beijá-los no teu íntimo, na esperança que eles se transformem em príncipes. E quando isso acontece, viras as costas como se nada tivesse acontecido. Porque tu realmente não queres um príncipe...apenas queres saber que foste tu a sua criadora. Procuras amor na posse e posse no amor. Apenas porque a posse te dá o amor-próprio que não tens. Bem-aventurados são aqueles cujo ego não necessita de ser alimentado por palavras vãs e coleiras invisíveis. Eu sei. Tu não és bem-aventurada.

Olho para ti do fundo do jardim, criatura patética. E na minha face esboça-se um egoísta sorriso cruel. Observo harmoniosamente o espectáculo que decorre à minha frente. E espero...pelo grande final. Se é que há um.

Não importa. Mudei de ideias. Levanto-me e vou embora do banco de jardim. E abandono-te aos teus fantasmas dementes. Olho para trás uma última vez. E sinto a noite a sorrir-me de mansinho, porque sei que sou forte e tu és fraca. Porque sei que enquanto dás saltos inúteis no ar, sem nunca sair do mesmo sítio, eu arrasto a minha espada no chão. Mas carrego-a e percorro o meu caminho. Porque a natureza deu-me alma de lutadora, sem eu lhe pedir.

Subo os degraus e não sei o que hei-de sentir por ti....pena?

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